domingo, 25 de maio de 2008

Metamorfose

Quando certa manhã Gregório Silva acordou de sonhos intranqüilos encontrou-se em sua cama metamorfoseado em um artista monstruoso. Os olhos, agora, percebiam cada cor e cada detalhe de seu quarto mesmo no escuro. Suas mãos, mais sensíveis, não mais se moviam deselegantemente como antes.

Era como se, à sua frente, um filme da década de 30 tivesse ganhado toda a lisergia da década de 60. Seus dedos se moviam com uma delicadeza, uma destreza, que ganhavam personalidade própria. E ele soube que eles poderiam pintar, pintar o que quisessem.

Antes mesmo de pensar em se levantar, o despertador tocou. Estava desempregado há ano e meio. Hoje, tinha uma entrevista. Mais uma. Sua esposa era quem sustentava ele e a filha pequena; o que a estava deixando cansada. Já era hora de ajudar de alguma forma.

Um calafrio percorreu-lhe a espinha; estranho, como todos aqueles sentimentos que vinha tendo desde que acordou. Há uma semana havia visto a história de um pintor muito famoso ignorado por todos enquanto vivo, mas, após sua morte, seus quadros chegavam a valer milhares de dólares. Ele poderia fazer isso, sabia que podia. Pintar! Era perfeito.

Correu para sua escrivaninha, não havia pincéis, nem tinta, nem qualquer coisa relacionada à pintura. Enquanto tirava a remela, lembrou-se que, nos fundos, havia algumas latas de tintas que sobraram de um serviço antigo. O verde, o amarelo, o preto, foram o seu desjejum naquela manhã.

O quê pintar? Onde pintar? Uma folha era pequena demais para expressar tudo o que estava sentido. Precisava de algo maior, bem maior... Como uma parede... A parede da sala!

Aquele tinha sido o último cômodo de sua casa a ficar pronto. Ele e sua esposa haviam conseguido montar tudo com o pouco de dinheiro que tinham e a ajuda de familiares. Ao menos, não se preocupavam mais com aluguel... Apesar da mobília velha, do tamanho modesto, era a sala nova, da casa nova.

Porém, agora, ele a via vã e vazia. A escuridão era sólida. Abriu a janela. Do outro lado, a sua sombra era projetada, imponente, na parede. Ele sorriu. E o vazio o temeu.

Com movimentos rápidos, em uma cadência febril, a parede como “quadro”, os dedos como pincéis e a imaginação como guia de toda aquela loucura, ele pintava. Tremia de excitação. As figuras iam se formando. Era maravilhoso! Ele nunca soube que desenhava tão bem. Era como se a arte fizesse parte dele. Uma flor! Um balanço! Uma menina! Tudo estava ali, na parede. Porque pintavam a parede só de branco?

Ele ia de um lado para o outro, em cima do sofá, em cima da mesa, alcançando até o canto mais longínquo, lá onde aracnídeos constroem seus lares e formam suas famílias.

Em instantes, já não era mais uma pintura campestre na parede da sala, eram mobílias de sala dispostas no campo. E as folhas das árvores balançavam com o vento, e a menina sorria no balanço, e a borboleta ziguezagueava vindo pousar em seu nariz. E ele viu que tudo aquilo era bom.

Acabou Gregório a obra que tinha feito. E descansou de tudo o que fizera. Essa foi a origem de todas aquelas maravilhas, assim foram criadas pelo artista. Deitado na verde grama, ofegante, sentia o suor escorrendo pela testa e a luz do Sol aquecendo a sua face. O canto dos passarinhos a voar sobre a sua cabeça lhe agradecia por todo o mundo que criara.

De repente, os pássaros pararam de cantar, e voaram para longe; a borboleta parou de se exibir, e se escondeu numa margarida; a menina ficou em silencio, e parou de balançar; a brisa deu meia-volta, e as folhas das árvores ficaram imóveis. Toda a maravilha fora quebrada por um grito, de raiva. Na porta, com a mão na cabeça, uma mulher olhava tudo aquilo, desolada.

Na parede, no chão, na mobília, no teto, em todo o lugar, manchas verdes, amarelas, vermelhas e pretas, de forma caótica, se misturavam. A mulher gritava, como se o tom da voz fosse facilitar a compreensão. Quando saíra de manhã para trabalhar, tudo estava em ordem, o marido dormia no quarto, a filha estava pronta para ir à escola, o café se mantinha quente na garrafa. E o que esperava encontrar era a cama desarrumada pelo marido preguiçoso que estaria em uma entrevista e a garrafa destampada com o café frio. Tudo em silêncio, já que a filha não teria voltado da escola. Mas o que via era o caos, e, ali, deitado no meio da sala, um homem sujo de tinta, cansado, pedindo para que não assustasse os passarinhos.

Mas que merda de passarinhos?! O que será que aquele homem tinha na cabeça? E o emprego? E a comida? Eles tinham uma criança para cuidar! Aquilo era demais para a ela. Não podia mais viver daquele jeito. E a entrevista? Ela já não agüentava ter que cuidar da família sozinha! Não, ele estava ficando louco. Ela não agüentava mais aquela situação. Não agüentava mesmo. O melhor era ela ir embora, pegar a filha e ir morar com a irmã. Ah, mas era isso mesmo! Que não duvidasse dela. Sustentar vagabundo?!

Ela se cansou de gritar e foi para o quarto. Bateu a porta.

O artista olhava tudo o que havia feito. Ela não tinha visto os pássaros, e como eles eram engraçadinhos? Ela não tinha visto a borboleta, e a leveza com que voava? Ela não tinha visto a menina, e a felicidade com que balançava?

Triste, ele retirou cuidadosamente uma almofada do sofá, evitando manchá-la, pegou seu material de trabalho e foi ao banheiro. Com a almofada apoiada na pia, esforçava-se para retirar a já escassa tinta dos potes. Faria nela um presente; algo de rara beleza. Olhando no espelho, observava todos os detalhes de seu rosto. Teve dificuldades com a orelha direita, que teimava em querer aparecer na pintura, o que destoaria a obra. Acabou prendendo-a com um esparadrapo. Adorou o que viu na almofada, era como se ela o refletisse melhor do que o espelho. Era como se o que ele pudesse fazer fosse melhor do que o que ele pudesse ver. Lavou as mãos e foi até o quarto onde a esposa se trancara.

Ele trouxe a pintura como um pedido de desculpas. Mas ela devia entender que a sala tinha ficado muito mais bonita. Ela não havia visto as árvores, aquele coelho? E o riacho? Até que não dava para vê-lo, mas dava para ouvir o barulhinho. Era ele na almofada. Olhe. Era um presente. Ele havia feito pra ela.

Mas o que ele estava pensando? Ele era um imbecil? Aquela almofada era presente de família! Ela havia ganhado aquela almofada da sua mãe que por sua vez havia herdado da sua! Foi a bisavó dela quem fez. O que ele pensava que estava fazendo? Do que estava falando? Que porcaria de árvore? Que porcaria de riacho? Por que havia jogado tinta na almofada? Por que estragou a almofada? Se era pra deixá-la mais nervosa, ele havia conseguido. Que sumisse da frente dela! Havia estragado a almofada dela, da mãe dela, da avó, da bisavó... Que saísse da frente dela, e nunca mais voltasse!

Como um ponto final, a porta bateu novamente. E ele ficou ali em frente, parado. A raiva que ela exprimia não era metade da confusão que ele sentia. Será que ela não entendia de pintura?

Foi até a sala e ficou olhando a sua obra. Sem emprego há mais de um ano. A mulher enfurecida, cansada de tanto trabalhar. Sua filhinha... Tudo dependia dele. Mas o quê ele poderia fazer? Não sabia... Sim, sabia!

Ele abriu a porta da estante da sala. Lá no fundo tinha uma arma. Era como o pintor famoso, não queriam reconhecer a sua obra em vida. E, se ele morresse, aquilo poderia valer milhares de dólares. Com aquele dinheiro poderiam mudar para um bairro melhor; a mulher não precisaria mais sustentar a casa sozinha; a filha poderia estudar em uma escola decente; e nunca mais andariam de ônibus! E depois? Depois ele voltava. Aí a esposa reconheceria seu trabalho e ele poderia continuar pintando. Fariam as pazes.

Colocou a arma no peito e, sem hesitar, puxou o gatilho. Sabia o que estava fazendo. Tudo ficou escuro, não sentia dor. Estava tão calmo.

Até que ouviu um grito, agora, de dor. Era a mulher. Ela chorava desesperadamente se perguntando o porquê. Desculpava-se, dizia que ele não precisava ter feito aquilo. O artista queria pedir para que ela se acalmasse, mas agora não podia, ainda estava morto.

Deitado no chão, ele se deliciava imaginando a mulher com aquele relógio que ela tinha visto numa loja chique outro dia... Não! Melhor! Daria um carro só pra ela. Daí, não ia ter mais jeito, ela ia ter que fazer aula de motorista.

A mulher saiu da sala gritando. O artista ficou sozinho, tudo em silêncio. Pra onde será que a mulher tinha ido? Ah, ela ia ficar muito contente quando ele ficasse vivo de novo, e como ia!

Neste instante ele ouviu uns passinhos, leves, e uma vozinha. Era a sua filha, estava chegando da escola. Vinha chamando por ele.

Imaginou as bonecas que ela teria, as roupas que usaria, o sorriso de alegria no rosto. Agora, sim, ela ia ser feliz.

A menininha perguntou se ele estava machucado. Quase que ele respondeu e estragou tudo. Mas ainda estava morto. Ela o chamava, baixinho, parecia perceber que não haveria resposta.

Novamente a voz da mulher. Ainda chorava muito. Quando viu a filha perdeu o controle, ficava repetindo que não era para ela ter visto aquilo. Por que ela foi entrar? Vizinhas tiveram que tirar à força as duas dali. Ele devia ter contado para a mulher qual era o seu plano, ia evitar toda essa choradeira. Às vezes, ela faz muito escândalo...

Daí apareceu o Jota. Gente boa! Morava em frente. Tinha curso de primeiros socorros. Começou a examinar o corpo. Figura esse Jota! O artista ia dar um carro pra ele também. O cara era gente fina mesmo, merecia.

Consternado, o Jota olhou para os presentes e sentenciou: Morto! Pronto, era o que o artista queria ouvir. Agora, era só se levantar.

13 comentários:

Luciano Alvarenga disse...

Valeu, Rogéiro - as cotas, dei uma olhada. Luciano Alvarenga

Frederico disse...

"O verde, o amarelo, o preto, foram o seu desjejum naquela manhã."
"E ele viu que tudo aquilo era bom."
Ótimo.

Rogério Faria disse...

Fala, Fred! Valeu! Essa primeria fase inventei de última hora, antes de postar, mas na intenção de dar a relevância, a importância, da cena para o artista. A última é do "Genêsis", assim que deus cria o mundo. Abraço.

Anônimo disse...

Rogério, bom conto. Mas acho que você poderia ter sido um pouco mais criativo com relação ao título, apezar que se a idéia era plagear o Kafka você conseguiu.
A parte em que ele vai ao banheiro pintar a almofada para presentear a almofada só fica compreendida no parágrafo seguinte.A primeira vez que eu li, tive a impresão de que a intensão do figura era usar a almofada para se enconstar na pia afim de lavar o rosto sujo de tinta ou algo assim.
È isso!

Anônimo disse...

Rogerio, o anônimo é logico que sou eu!

Rogério Faria disse...

Lógico que você é o Anônimo, Anônimo. Este é um texto que escrevi em 2000. A idéia era, exatamente, referenciar Kafka. Assim como o título, todo o primeiro parágrafo é quase que o mesmo da abertura do famoso conto. Na época, fiz outros textos no mesmo exercício; usando o título e o primeiro parágrafo, com pequenas variações. Claro que o estilo era outro. No entanto, perdi todos. Só consegui recuperar este. Tinha um no qual o cara acordava transformado num lençol... Bem, valeu por participar. Abraço.

Anônimo disse...

Uhhhhh............ Ficou bravinho, sou Rogerio; Joel. O que é mais interesante é que a parte mais importante da critica voce nem deu atenção.Prestra atenção da proxima vez e não se altera.

Anônimo disse...

Deixa eu te dizer mais algumas coisas DR. eu não tenho a obrigação de saber qual foi a origem da idéia,voce no minimo deveria tela sitado no inicio do texto, segundo: o senhor já tinha sido informado que eu não estava escrevendo por problemas no blogger, então voce me sugeriu que seleciona-se o campo anonimo, agora se não sabe ouvir criticas, se só gosta dos elogios, me avisa pois nem perderei tempo escrevendo.

Joel Joel Joel Joel Joel Joel Joel JoelJoel JoelJoel Joel Joel Joel Joel Joel Joel Joel JoelJoel Joel JoelJoelJoelJoelJoel Joel Joel Joel Joel JoelJoelJoel!

Rogério Faria disse...

Querido amigo Joel, suspeitei desde o princípio. Só você tem a boa vontade de me criticar abertamente. Mas não fiquei bravo, não. Foi apenas uma ironia inocente. Comentei seu comentário, explicando a intenção do texto. Sabe que gosto disso. Em discussões pela internet temos que tomar cuidado para não pressupor equivocadamente o tom do interlocutor. Acho que "a parte mais importante" é quanto à almofada, certo? Então, foi ótimo você mencionar a sua dificuldade nessa passagem, e não tenho como me justificar. Posso tentar mudá-la, qualquer hora. E, também, prometer ser mais diligente no próximo. E você é muito bem-vindo para descer a lenha. Abraço.

P.S.: Você ainda é meu amigo?

Rogério Faria disse...

Big Joe, achei a hora! Veja lá se está do seu agrado. Abraço.

Anônimo disse...

Perfeito meu caro.Agora uma obra- prima!

Joel Reis

Manfre disse...

Adorei o conto! Ele já estava bom, mas ficou melhor com a alteração sugerida pelo Joel.
Espero que vc coloque mais dos seus textos por aqui.

Rogério Faria disse...

Valeu, Manfre! Pretendo por mais textos, sim. Beijo.

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