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segunda-feira, 12 de maio de 2008

V de Vingança


Assisti ao filme e reli o álbum. A película não faz jus à história em quadrinhos de Alan Moore, o bruxo inglês. É um pecado. E acho que chega a justificar que um escritor como ele ache o roteiro um lixo. A criatividade, a convicção, as idéias e ideais que ele envolveu na criação do livro, mesmo que tenha começado como mais uma história e no passar dos anos foi se transformando (foram 10 anos para escrever os quadrinhos), se perdem no filme. Tentaram transformar a obra num filme e mataram, talvez, não a idéia, mas o ideal. Aí, um artista consistente que escreve não só pelo ato, mas pela expressão, fica realmente irritado. (Não dá pra deixarem fazer isso com um "filho" seu, né?). Talvez os demais possam analisar com menos paixão, talvez não.

Acho que o ponto alto, fora as coreografias das facas, é a interpretação. Portman e Weaving estão sensacionais. Embora o "V" do filme tenha sido arregaçado; é como se filmassem o "Cavaleiro das Trevas", a 1ª parte, com o Adam West. Weaving consegue dar alma a um herói coberto com uma mascára estática todo o filme. Mas a cena da asma, logo após a fraca seqüência da tortura, é linda. Portman manda muito bem e faz algo emocionante. A melhor coisa do filme. De resto, é uma diversão cara, principalmente no Kinoplex Itaim sem carteirinha de estudante.

Quanto às adaptações, tudo bem. Sempre há seqüências que precisam ser adaptadas. Mas algumas foram porcamente, como a do cara que ela encontra após fugir do "V". E o final... O final vira uma baboseira que só Hollywood consegue fazer. Acho que isso irritou o "bruxo", acabaram com toda a mensagem dele.

O tomo três na hq é espetacular. A forma como tudo se encaixa, como "V" se transforma de uma homem em uma idéia, e, principalmente, como a massa se comporta numa situação dessa: de forma caótica (não aquele carnaval do filme). E esse discurso de que o filme aproxima a discussão principal da história das pessoas comuns não funciona; as pessoas comuns não discutem.

Por fim, o roteiro é o pior de tudo. Um “script” cheio de furos, desconjuntado (principalmente) e confuso.

V de Vingança / V for Vendetta. EUA, 2006. Ficção - 132 min. Direção: James McTeigue. Roteiro: Andy Wachowski & Larry Wachowski, baseados em HQ de Alan Moore e David Lloyd. Elenco: Natalie Portman, Hugo Weaving, Stephen Rea, John Hurt, Roger Allam, Sinéad Cusack, Stephen Fry, Rupert Graves, Ben Miles, Tim Pigott-Smith, John Standing, Natasha Wightman, Clive Ashborn

quinta-feira, 24 de janeiro de 2008

Ilusão


Assisti à refilmagem de “A Grande Ilusão”, cujo original é um dos melhores filmes que já vi e comentei aqui.

A história é, resumidamente, a trajetória de um caipira que se torna governador, e se corrompe, sendo acompanhada por um jornalista que vê sua vida amorosa e social desmoronar em razão da fidelidade devotada ao político.

O filme tem um elenco excepcional: Sean Penn, Jude Law, Anthony Hopkins, Kate Winslet, James Gandolfini, entre outros. E foi escrito e dirigido por Steven Zaillian, roteirista de “A Lista de Schindler”. Promissor.

Param aí os méritos da metragem.

Como filme isolado é uma porcaria, como refilmagem do clássico de 1949, de Robert Rossen, é lamentável. Tanto que o filme nem sequer saiu no cinema lá fora. Foi total catástrofe de crítica e público. No Brasil, o destino não foi diferente.

A trajetória de Willie Stark, o governador, não faz sentido nenhum. Enquanto, no original, a evolução (ou involução) do personagem se dá de forma crível e gradativa, mostrando exemplificativamente o corrompimento da alma do caipira, no filme de 2006, não há profundidade alguma. Fora a má atuação de Penn, exageradamente caricatural.

Todos os personagens são rasos demais e suas motivações inexistentes. No filme de Zaillian, não conseguimos entender porquê o jornalista Jack Burden, interpretado por Jude Law, é tão fiel ao político, e aceita destruir deliberadamente seus relacionamentos familiares, de amizade e amorosos. Outro exemplo é o romance de Stark com Anne Stanton (Kate Winslet), o qual não faz sentido algum na história.

Tentando fazer um “noir” político, ele abusa da narração, e diversas situações que são mostradas e desenvolvidas no filme de 49, aqui, são simplesmente contadas, não funcionando para envolver ou convencer o espectador.

Assim, o filme se torna algo cansativo e arrastado; e eu só fiquei até o fim para poder mesmo comparar com o anterior... E não tem comparação.

Consigo resumir esse texto todo em cinco letras: FUJAM.

(A Grande Ilusão/All the King’s Men – EUA/2006 - Um filme de Steven Zaillian - com Sean Penn, Jude Law, Anthony Hopkins, Kate Winslet e James Gandolfini)

quarta-feira, 28 de novembro de 2007

Matéria-Prima


A honestidade é um valor absoluto?

Não para Willie Stark (Broderick Crawford) no filme “A grande ilusão” de 1949, dirigido por Robert Rossen. Caipira do interior dos Estados Unidos, Stark almeja um cargo eletivo para poder ajudar a população pobre. Jogando limpo, com discursos técnicos sobre os reais problemas sociais, não consegue mais que uns gatos pingados a lhe apertar a mão. Aos poucos, e conscientemente, vai abrindo mão do jogo honesto, com a justificativa da luta pelo bem social. Porém, o desvio é cada vez maior, e o objetivo se perde, tornando-se uma mera luta pelo poder.

É a trajetória, acompanhada pelo jornalista Jack Burden (John Ireland), de um honesto caipira que se transforma num político corrupto e populista, enquanto vai corrompendo e destruindo a vida de todos à sua volta, inclusive da namorada e amigos de Burden.

Ótimo roteiro, que consegue, em pouco menos de duas horas, apresentar de forma crível e bem desenvolvida a gradual transformação de Willie Stark. Não se pode deixar de elogiar, também, a ótima atuação de Crawford, convincente como caipira e como governador.

Apesar de filmado em 1949, o filme continua incrivelmente atual aqui em terras tupiniquins.

Leva-nos a questionar de onde vem a corrupção política? Por que tanto político corrupto no Brasil? De onde eles vêm? Não são alienígenas...

São pessoas dos mais diversos extratos sociais, desde operários nordestinos a professores da Souborne; mas por que nenhum dá certo? Por que nenhum político presta? De onde eles vieram? Do Brasil, onde é comum baixar ilegalmente músicas na “internet”, comprar devedê no camelô; usar “software” pirata; furar fila na balada; jogar papel no chão; ultrapassar limite de velocidade; sonegar imposto...

Políticos não vão salvar este país, e nem é essa a função deles, eles são nossos representantes. E nós somos exatamente isso o que eles representam.

Como Willie Stark, que começa desrespeitando a lei para ajudar os pobres, todos têm justificativas para infringir as regras. Você tem, os bandidos têm, os políticos têm. Aí, ser ou não válida essa justificativa é outro problema, pois a questão torna-se subjetiva.

Para se viver em sociedade é necessário o respeito mútuo, e uma certa limitação da liberdade individual. Como isso é feito? Através de regras. E temos a lei. Sem as regras, que nós mesmos criamos, direta ou indiretamente, não é possível uma sociedade harmônica; o que acaba por minar essa própria sociedade.

Se existe uma lei que proíbe determinando comportamento, por mais inofensivo que seja a infração, a regra deve ser respeitada. É um critério objetivo: "não posso porque não posso". A partir do momento que um indivíduo descumpre uma regra, por mais nobre que seja a sua justificativa, há um abalo num pilar fundamental da sociedade. Cada uma que infringe uma regra, do cara que compra cedê pirata porque o preço do original é um absurdo ao parlamentar que legisla mediante suborno, todos têm uma justificativa, todos agem conforme seus valores, e isso é subjetivo. Esse é o problema desse país. Uma síndrome de "Robin Hood", seja em benefício próprio ou de terceiros. Temos uma falha no nosso caráter: o desrespeito às regras.

Se a regra é injusta, ela tem que ser mudada, não ignorada. Mas, enquanto regra, ele tem que ser respeitada. Mobilize-se e mude a lei da qual você discorde, que seja a que proíbe a venda de cedê pirata!

Enquanto a sociedade não se conscientizar, ela vai continuar produzindo político corrupto, policial corrupto, juiz corrupto, médico corrupto, pipoqueiro corrupto, catador de latinha corrupto. Nós somos a matéria-prima.

Voltando ao filme, é por isso que eu o recomendo: É uma história sobre político corrupto, é uma história sobre você.

Matéria-Prima: matéria bruta com que se fabrica ou elabora algo (Dicionário Houaiss)

(A Grande Ilusão/All the King’s Men – EUA/1949/Drama/109′ - Um filme de Robert Rossen - com Broderick Crawford, John Ireland, Joanne Dru)

P.S.: Cuidado: refilmaram esta história em 2006 com um excepcional elenco, mas, parece-me, a qualidade não é a mesma.

quarta-feira, 31 de outubro de 2007

Tropa da Elite


(vou falar sobre elementos que podem estragar a surpresa de quem ainda não assistiu)

Fiquei deprimido após assistir ao "Tropa de Elite".

Como filme, a obra é excelente. Os atores estão ótimos. O roteiro desenvolve a história muito bem. E a linguagem documental (planos longos, iluminação natural) da filmagem acrescenta ainda mais realidade. Sem contar a edição. O diretor, José Padilha, (o mesmo do "Ônibus 174") reuniu aqui a mesma equipe que fez "Cidade de Deus": roteirista, preparadores de atores, editores; não quis arriscar.

Mijei cinco minutos antes do filme começar. Apagadas as luzes, a bexiga psicológica ativou. Ficava torcendo para o filme acabar logo e poder ir ao banheiro. Porém, lá pelo meio da sessão, no começo do treinamento, esqueci-me da frescura e fui conquistado pela narrativa.
E o filme é chocante, não há como negar. Todo o mundo que lhe assiste, sai com uma opinião. Ninguém fica indiferente.

Padilha, inicialmente, pensava em fazer um documentário sobre o BOPE - Batalhão de Operações Especiais da polícia do Rio de Janeiro. Mas, devido a dificuldades encontradas, preferiu ficar na ficção. Como a intenção era apresentar o BOPE, a história é contada do ponto de vista dos policiais. Não é o ponto de vista do roteirista, do diretor ou do Wagner Moura.
O resultado, ainda mais na atual estagnação racional da sociedade moderna, foi além de uma obra de entretenimento, foi além de uma obra de discussão social, tornou-se uma experiência sociológica. Como já li em algum lugar: o filme é um espelho mostrando à nossa sociedade (nós mesmos) o quanto ela feia.

Tornar o Capitão Nascimento um novo herói nacional mostra o fundo do poço (moral e intelectual) ao qual estamos chegando. Claro, não se deve se conivente com a bandidagem, com o tráfico e tudo mais. Bandido, mau ou bonzinho, é bandido e tem que pagar, CONFORME A LEI.

Achar que subir o morro e dar tiro na cara dos marginais vai resolver o problema de violência neste país é muita ignorância. Em dados apresentado na edição da semana passada da Carta Capital, no Rio de Janeiro, no primeiro semestre deste ano, foram mortos 694 civis por policiais, por supostamente resistirem à prisão. É o maior número do país. No entanto, é o Estado que registra um dos maiores índices de violência. Não é contraditório? Se estão matando os bandidos, conforme o Capitão Nascimento prega, como é que a criminalidade continua aumentando???

Na primeira metade, acompanhamos a narrativa do ponto de vista do Capitão Nascimento, casado, com síndrome do pânico, esperando o filho, com sentimento de remorso por ter influenciado na morte de um fogueteiro, conhecemos Neto e Matias, dois jovens honestos que querem fazer a coisa certa. O Matias, ainda, ajuda uma ONG, está tentando conquistar uma gatinha, quer se formar em direito. Somos seduzidos pelos personagens. Acabamos por nos identificar com eles.

Então, na segunda metade do filme, seduzidos pelo Capitão Nascimento, nós nos INSCREVEMOS no treinamento do BOPE, assim como o Matias e Neto. A partir daí, os valores morais e o senso crítico vão para o ralo.

Apesar do filme ser o ponto de vista do BOPE, os autores acabam por colocar lá um pouco da própria opinião. Vejamos:

Primeiro: o Capitão Nascimento começa como um futuro pai de família, a esposa o ama, ele quer sair do BOPE em razão do perigo, para cuidar do filho. Ele termina abandonado pela esposa, com síndrome do pânico. E, só para mostrar o quanto o personagem é incoerente e falível: na primeira metade ele fica com remorso por ter causado a morte de um fogueteiro ao fazê-lo entregar um traficante. Quase para o final do filme, ele faz a mesma coisa com outro garoto (o qual entrega o Baiano), que, até então, não tinha nada a ver com a história.

Segundo: Matias começa como um jovem honesto, idealista, tímido (é só ver a discussão na sala de aula), com uma bela paquera. Termina estúpido, sem namorada, sem amigos.
Terceiro: Neto surge como um jovem honesto, idealista. Acaba morto.

Os três personagens principais do filme se ferram. Os autores não são coniventes com as atitudes dos personagens.

O que vai reduzir a criminalidade neste país, não é só policial no morro. Nem só a prisão dos bandidos, tanto os pobres quanto os colarinhos branco. Nem só a diminuição da desigualdade social. O que vai acabar, não só com a criminalidade neste país, mas com as mazelas em geral é uma sociedade menos alienada. E isso não se dá simplesmente "colocando no saco..."

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