quarta-feira, 24 de outubro de 2007

Triste figura


"O Engenhoso Fidalgo D. Quixote de La Mancha" conta a cômica história de um fidalgo que, de tanto ler romances de cavalaria, fica louco, e resolve sair pelo mundo como cavaleiro andante, com seu fiel escudeiro, em busca de aventuras. O primeiro volume, escrito por Miguel de Cervantes há pouco mais de 400 anos, é considerado a obra inaugural do romance ocidental moderno. É tido por muitos críticos como o maior romance já escrito.

Na quarta capa da edição da Editora 34, Dostoiévski afirma que D. Quixote é a mais grandiosa e acabada expressão da mente humana. Depois de quase 700 páginas de uma leitura nada mais que aprazível, entendi o que ele queria dizer. Apesar de achar que não compartilhamos (Dostoiévksi e eu) da mesma visão da humanidade.

Quase para o final do livro, D. Quixote, louco, é preso por amigos em uma frágil jaula, para que possa ser levado de volta à sua casa. No intento de impedir-lhe a fuga, esses amigos inventam que a jaula é encantada, assim, o cavaleiro não poderia escapar. Seu fiel escudeiro resolve, então, alertá-lo de que não há feitiço algum, e que D. Quixote poderia escapar quando quisesse. Daí, surge o discurso mais importante deste primeiro volume das aventuras do Cavaleiro da Triste Figura: "Eu sei e tenho para mim que estou encantado, e isto basta para a segurança da minha consciência, e muito a carregaria se eu pensasse que não estou encantado e me deixasse estar nesta jaula preguiçoso e covarde, negando o socorro que poderia dar a muitos desvalidos e necessitados que, ora agora, devem ter precisa e extrema necessidade da minha ajuda e amparo.” (pp. 681 e 682)

Aqui se desfez aquele virtuosismo com o qual o personagem foi para mim apresentando e representado durante todos esses anos. Vi em D. Quixote o egoísmo humano. Realmente, o que considero a condição humana.

No início do livro, o fidalgo não sentia fome, não sentia tristeza, não tinha obrigações, nem de padre, nem de barbeiro, nem de nada, tinha um vazio. Por não acreditar na vida que se dá, inventou uma vida.

Tendo uma boa condição, o que ele fez durante toda a sua vida, até então, para ajudar a humanidade? Nada. Gastou dinheiro e tempo lendo romances de cavalaria.

As pessoas morriam de fome. Os desvalidos eram injustiçados. As donzelas eram violadas.

De repente, fica louco e resolve ajudar a humanidade. Como? Da maneira mais inútil possível.

As pessoas continuam morrendo de fome. Os desvalidos continuam injustiçados. As donzelas continuam a ser violadas. D. Quixote só traz o humor a temperar.

Ele sai pelo mundo fazendo aquilo que quer que seja o certo. Nessa visão egoísta, muita coisa errada é feita, muita gente é prejudicada.

Assim caminha a humanidade. Cada quixote ocupa-se com os seus próprios moinhos de vento, seus próprio valentes biscainhos, seus próprios magos Frestão. Desta forma, tem a sua consciência confortada enquanto vê uma criança morrendo de fome, um idoso na fila do hospital, troca de tiro na favela.

O quixote foge do seu papel social, foge das suas responsabilidades. Fecha-se no seu mundo. E não adianta discutir, ele não quer ouvir. É um covarde. Não há raciocínio. Mesmo que veja, mesmo que tudo esteja claro à sua frente, ele inventa uma interpretação atabalhoada, na qual ele vai acreditar, pouco importando o que os outros pensam. E quem pensar diferente, pouco importa o argumento, é louco, é mentiroso, é inimigo. A realidade é moldada àquilo que o quixote quer que seja.

Essa é a grandiosa e acabada expressão da mente humana representada no livro, no personagem. Não um valente e ingênuo homem contra o invencível mal no coração dos homens, mas o próprio mal do coração dos homens.

Agora, tenho que ler de novo as anteriores quase 700 páginas, com esses novos olhos.

E aguardar o segundo livro na tradução da mesma editora, que ainda não saiu.

- Cervantes Saavedra, Miguel de, O engenhoso fidalgo D. Quixote de La Mancha, Primeiro Livro; tradução de Sérgio Molina; gravuras de Gustave Doré. - São Paulo: Ed. 34, 2002. 736p.
- Dom Quixote e Sancho Pança, de Pablo Picasso, 1955.

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